Economia CircularWCEF 2026 coloca o Sul Global no centro da nova economia circular
Realizado pela primeira vez no Sul da Ásia, fórum internacional defende uma circularidade que começa no projeto dos produtos, preserva o valor dos materiais e transforma resíduos em desenvolvimento econômico
O World Circular Economy Forum 2026 reuniu, entre 15 e 18 de setembro, em Gandhinagar, no estado indiano de Gujarat, representantes de governos, empresas, instituições financeiras, universidades e organizações da sociedade civil para discutir como a economia circular pode deixar de ser uma iniciativa isolada de reciclagem e se transformar em uma estratégia de desenvolvimento econômico.
Em sua décima edição, o WCEF foi realizado pela primeira vez no Sul da Ásia. Sob o tema “Economia circular: transição para as pessoas e a prosperidade”, o encontro colocou a Índia e os países do Sul Global no centro do debate sobre o uso mais eficiente dos recursos naturais, a redução da dependência de matérias-primas virgens e a criação de cadeias produtivas capazes de preservar o valor dos materiais durante mais tempo.
O evento foi organizado pelo Fundo Finlandês de Inovação Sitra e pelo Central Pollution Control Board da Índia, com apoio dos governos da Índia, da Finlândia e de Gujarat. Segundo informações divulgadas durante o fórum, mais de 3.600 participantes de 62 países acompanharam a programação, enquanto aproximadamente 135 expositores nacionais e internacionais apresentaram soluções relacionadas à circularidade.
A escolha da Índia não foi casual. O país reúne uma indústria em rápida expansão, uma população superior a 1,4 bilhão de habitantes e um mercado no qual atividades de reparo, reúso, recuperação e reciclagem já possuem grande importância econômica e social. Ao mesmo tempo, enfrenta o desafio de ampliar o consumo e a produção industrial sem reproduzir integralmente o modelo linear baseado em extrair, produzir, consumir e descartar.
Durante a abertura, o ministro indiano do Meio Ambiente, Bhupender Yadav, afirmou que a verdadeira medida de uma economia circular não deve ser apenas a quantidade de resíduos reciclados, mas quanto valor deixa de ser desperdiçado. A declaração sintetizou uma das principais mensagens do encontro: a reciclagem continua essencial, porém representa somente uma das etapas da circularidade.
O novo modelo proposto começa antes que o resíduo exista. Ele envolve o desenvolvimento de produtos mais duráveis, reparáveis, reutilizáveis, desmontáveis e recicláveis. Também exige que fabricantes conheçam a origem dos materiais, acompanhem o produto durante seu ciclo de vida e assumam responsabilidade por sua recuperação depois do uso.
A Índia apresentou seus sistemas de responsabilidade estendida do produtor como parte dessa transformação. Até agosto de 2026, o país contabilizava mais de 83 mil produtores e 4.802 recicladores registrados em diferentes estruturas de EPR, sigla em inglês para responsabilidade estendida do produtor. De acordo com os dados apresentados no evento, aproximadamente 48,2 milhões de toneladas de resíduos já haviam sido processadas nos fluxos regulados.
As regras indianas abrangem categorias como embalagens plásticas, equipamentos eletroeletrônicos, baterias, pneus, óleos usados, veículos em fim de vida, resíduos da construção e demolição e sucatas de metais não ferrosos. Os produtores, importadores, proprietários de marcas e fabricantes de equipamentos passam a ter obrigações relacionadas à gestão ambiental dos produtos após o término de sua vida útil, incluindo metas de reciclagem e utilização de conteúdo reciclado.
O WCEF 2026 também evidenciou que a circularidade está se tornando uma questão de competitividade industrial. Empresas capazes de recuperar componentes, reduzir a utilização de matérias-primas virgens e reinserir materiais secundários na produção podem diminuir sua exposição à volatilidade internacional dos preços e à escassez de recursos estratégicos.
Essa discussão ganha especial relevância diante do crescimento das tecnologias digitais, da mobilidade elétrica e das fontes renováveis de energia. Baterias, equipamentos eletrônicos, painéis solares e veículos utilizam minerais e materiais cuja demanda tende a aumentar. Recuperá-los depois do uso transforma cidades, estoques de produtos e instalações industriais em verdadeiras reservas de matérias-primas, conceito conhecido como mineração urbana.
Um dos dados mais expressivos apresentados pelos organizadores indica que mais de US$ 25 trilhões em valor são perdidos todos os anos ao longo dos ciclos de vida dos produtos e das cadeias produtivas. Mais de US$ 5 trilhões seriam desperdiçados somente durante a extração, o refino e o processamento inicial dos materiais. Apesar desse potencial, a economia mundial permanece apenas cerca de 7% circular.
Outro indicador apresentado mostra que cada pessoa utiliza, em média, mais de 13 toneladas de materiais virgens por ano. Grande parte desses recursos permanece pouco tempo em circulação e perde valor depois de uma única utilização. Para os organizadores, o desafio consiste em transformar essa perda em novas atividades industriais, empregos, serviços e oportunidades de investimento.
A programação do fórum abordou temas como mineração urbana, cadeias circulares para moda e construção, financiamento de projetos, recuperação de minerais críticos, reaproveitamento de baterias de veículos elétricos, manufatura circular e uso de tecnologias digitais. Após os dois dias principais do encontro, mais de 60 sessões de aceleração foram organizadas para aprofundar soluções específicas e aproximar as discussões de projetos aplicáveis.
Na indústria automobilística, por exemplo, o debate destacou a necessidade de utilizar informações obtidas durante a desmontagem dos veículos para melhorar o projeto de novos modelos. Dados sobre durabilidade, corrosão, perda de função e possibilidade de reúso dos componentes podem orientar fabricantes na seleção de materiais e na criação de produtos com vida útil mais longa.
A inteligência artificial e os sistemas baseados em sensores também foram apontados como ferramentas capazes de identificar materiais, componentes e substâncias perigosas, além de aumentar a eficiência das operações de triagem e desmontagem. Entretanto, os participantes ressaltaram que a tecnologia precisa ser acompanhada por padronização, rastreabilidade e disponibilidade de materiais reciclados em quantidade e qualidade adequadas.
O fórum também atribuiu destaque ao papel dos hábitos de consumo. Para o governo indiano, a regulamentação não será suficiente se produtos descartáveis, de baixa durabilidade ou difíceis de reparar continuarem sendo priorizados pelo mercado. A transição depende igualmente da valorização do conserto, do reúso, da manutenção e dos mercados de produtos de segunda mão.
Essa visão aproxima a economia circular de práticas que sempre estiveram presentes em comunidades e economias populares. Oficinas de reparo, cooperativas, comerciantes de materiais recicláveis, remanufaturadores e trabalhadores informais não aparecem apenas como participantes periféricos, mas como parte de uma infraestrutura fundamental para manter produtos e materiais em circulação.
Para os países do Sul Global, o WCEF 2026 apresentou uma questão estratégica: continuar exportando matérias-primas e resíduos de baixo valor ou desenvolver capacidade industrial para reparar, remanufaturar, reciclar e produzir novos materiais. A circularidade pode permitir que uma parcela maior do valor econômico permaneça nos próprios países, criando empregos, fortalecendo empresas locais e reduzindo a dependência de importações.
O debate possui relação direta com o Brasil. O país apresenta grande disponibilidade de recursos naturais, uma extensa cadeia de reciclagem e um contingente expressivo de catadores, cooperativas, sucateiros, aparistas e empresas de gestão de resíduos. Ao mesmo tempo, ainda destina grandes volumes de materiais potencialmente recuperáveis a aterros e locais inadequados.
A principal mensagem deixada pelo World Circular Economy Forum 2026 é que os resíduos não podem mais ser discutidos apenas no final da cadeia produtiva. A transição circular exige mudanças desde a concepção do produto, passando pela produção e pelo consumo, até sua coleta, desmontagem e reinserção na economia.
Mais do que ampliar índices de reciclagem, o desafio é evitar que materiais, energia, conhecimento e valor econômico sejam desperdiçados. Ao levar o fórum para a Índia, o WCEF mostrou que o futuro da economia circular não será construído somente nos países mais ricos. Ele dependerá, em grande medida, da capacidade do Sul Global de transformar seus recursos, suas práticas de reúso e suas cadeias de reciclagem em uma nova estratégia de prosperidade.